quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Uma vida dupla
O primeiro assalto
28-01-2014
O Primeiro Assalto
Qual será o fruto do roubo? É um alistamento que assola a mente de Jorge, enquanto caminha apressadamente para o único lugar seguro que conhece: o apartamento alugado por si. Ainda faltam alguns minutos para lá chegar, Jorge empreende um grande esforço para não sucumbir. A adrenalina tomou conta das artérias e veias, o coração parece predisposto a libertar-se do tórax e a escapar do peito. Jorge respira profundamente - uma técnica que aprendeu num filme de samurais -, numa tentativa infrutífera de retomar o controlo sobre o seu corpo.
Ele chega ao prédio; felizmente não encontra ninguém até entrar no seu habitáculo. Jorge pensa na sua sorte: não faço a mínima ideia como reagiria, porém, muito provavelmente, teria um comportamento suspeito, nervoso e pusilânime. Nada aconteceu, e o ladrão suspira de alívio. Foi logo para o quarto onde, debaixo da cama, tinha um cofre verde. Neste escondeu a arma branca e a pistola. Já poucos segundos depois de encerrado o cofre, lembrou-se que tinha de colocar também dentro do recipiente verde a sua máscara de assalto.
O saco do roubo estava dentro da mochila, acompanhado com o pulôver negro com que fez o roubo. Pegou neste último, e pô-lo a lavar. A mochila é guardada na dispensa. O saco vem para o quarto. Jorge tenta mais uma vez efetuar um inventário mental antes de colocar os produtos do seu empreendimento em cima da cama. Confrontando o que vê com aquilo que imaginou no inventário, nota que os frutos do roubo são superiores aos contabilizados mentalmente: quatro carteiras masculinas e dois porta-níqueis, três telemóveis, dois relógios, uma mala de mulher e uma pulseira - possivelmente de prata. Nada mau - congratulou-se.
Sorriu observando o fruto do seu risco. Refletiu: foi precisa uma grande coragem para realizar esta proeza, não sou nenhum cobarde. E os seus pensamentos prosseguiram convictos: tudo isto pode ser ilegal, todavia o que faço só é mitigado pelo medo da lei. Ter a vontade de fazer, e quedar-se com medo da lei é igual a cometer o ato ilícito. Eu, pelo menos, não sou covarde. Eu não obedeço a convenções ridículas.
Este foi o seu primeiro assalto, demorou alguns minutos para que Jorge avançasse numa resolução quanto ao conteúdo suspenso nos lençóis da cama. Matutou um plano para os passos seguintes. Pegou nas carteiras e nos porta-moedas e retirou todo o dinheiro: contabilizou 130 euros, em notas; mais quarenta e dois euros e sessenta e quatro cêntimos, em moedas. O valor fiduciário, como os leitores podem constatar, perfazia os 172,64€. O mote explodiu precipitado na mente de Jorge: valente receita!
Depois, separou os dois relógios e os três telemóveis. Registou na sua mente que tinha de "limpar" os registos dos telemóveis, antes de entregá-los ao prestamista. Estes cinco itens valeriam uns cem euros. Assim, podemos adicionar este ao valor inicial e temos: 272,64€. A mala de senhora, deveria ter pouco valor comercial, para além disto ele não saberia onde encontrar um comprador - o seu destino foi o lixo. Por fim, a pulseira. O que fazer com a pulseira? Vender foi a primeira opção que lhe apareceu na cabeça, esta hipótese, porém, foi descartada. A pulseira terá outro fim.
Ele queria despachar o quanto antes o fruto do seu primeiro e único assalto. O prestamista era um tipo pouco dado a perguntas, chamado Quebradas. Os dois ficaram um pouco a conversar numa pequena tasca de subúrbios, antes do Quebradas convidar Jorge a isolar-se num parque de estacionamento situado entre dois prédios. Aqui, foi colocado nas mãos do prestamista os três telemóveis já "limpos" e os dois relógios. Quebradas avançou com o valor 180 euros, dizendo assim "cem mais oitenta". Jorge confrontou-o:
- Sabes muito bem que só um dos relógios vale muito mais do que isso.
Esta resposta encheu o peito de quem a proferiu pois inicialmente a estimativa reduzia-se a cem euros.
- Ossos do ofício. É pegar ou lançar.
- Não vou largar - disse Jorge sorrindo por dentro.
- Muito bem. Já te dou o dinheiro. Mas primeiro, tenho uma proposta a fazer-te.
Jorge suspeitava o que ia acontecer a seguir. Ou era uma proposta de sociedade num roubo, ou um negócio duvidoso com elevada margem de lucro, e de risco também.
- Não quero nenhuma proposta. Prefiro que me pagues em dinheiro.
- Não ouviste o que tenho a dizer.
- Não quero ouvir. Agradeço-te, mas não.
O agradecimento soou mal nos ouvidos do emissor. Criminosos não agradecem nada.
- Tenho aqui o dinheiro. Toma. Talvez outro...Tenho a certeza que será do teu interesse…
- É possível. Porém, agora, tenho tudo o que preciso.
Jorge despediu-se irritado com esta conversa, mas ao fazer contas de cabeça, animou-se. O ganho total desta experiência foi de trezentos e cinquenta e dois euros e sessenta e quatro cêntimos, e ainda sobrava uma pulseira. Com esta não sabia o que fazer. Guardou-a.