quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Uma vida dupla

Não nos debrucemos nos detalhes da segunda vida de Jorge, convenhamos, são banais e mundanos. Jorge tem uma família, uma namorada, amigos, um historial e um percurso. Tudo isto é uma vida. Poderá-se dizer inclusive que está era a sua primeira vida. Era nesta que estavam os pais, os tios, ou os amigos. Era nesta vida que Jorge encontrou o seu destino, o seu trabalho, o amor da sua vida. Foi nesta linha de vida que nasceu e cresceu. Estavam aqui a esmagadora maioria das suas experiências. 

A questão impõe-se: porque razão Jorge alugou um T1 nos subúrbios e planeou um assalto? Quando já tem o seu apartamento, muito bem localizado perto da foz. E porquê o assalto? Só num depósito bancário, Jorge acumulava uma pequena fortuna trezentas vezes superior ao valor do assalto. Parece obsceno roubar quando já se tem mais que suficiente para viver uma vida aprazível e condigna. Jorge não sentia nenhuma repulsa pelo que fez, não lhe pesava nada na consciência. 

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